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Milord

O Milord noutras paragens

Milord, 11.09.20

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Olivia's proposal | Hamilton | c.1796

A convite da nossa querida Zé, que tão gentilmente me cedeu o seu espaço virtual para que eu me exprimisse sobre um assunto tão importante, hoje mudei de ares e estou presente noutro blogue. Estou sentado confortavelmente numa poltrona, com uma chávena de chá numa mão e uma bolachinha caseira na outra, à espera das vossas reações sobre o meu texto acerca da liberdade.

Por isso venham visitar-me aqui, cumprimentem-me cortesmente e de uma forma pomposa (porque Milord não deixa por menos), e digam de sua justiça.

 

O Milord duvidoso

Milord, 06.09.20

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Escola de Atenas - 'Scuola di Atene' | Rafael Sanzio | 1509-1510

 

Maria: Este ano o meu filho não vai à escola. Não enquanto houver uma vacina contra este maldito vírus! Prefiro que ele perca um ano escolar do que perder a vida.

Milord: Ai sim, então porquê? O Covid19 só se transmite na escola e não nos bares e praias que ele frequenta?

 

O Milord do quotidiano

Milord, 02.09.20

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Santo António com o Menino Jesus em pintura de Stephan Kessler

 

A Maria colocou uma jarra de sumo arroxeado em cima da mesa para o pequeno-almoço. Olhei-a interrogativamente.

- É sumo de ameixa, Milord. Ajuda a melhorar a sua prisão de ventre - esclareceu-me - e, antes que pergunte, não as comprei. Roubei algumas do quintal da vizinha.

- Maria, começo a gostar cada vez mais de si!

A fruta está caríssima! Até eu, quando vou fazer as minhas caminhadas, roubo (ou melhor dizendo, pego!) alguns pêssegos do quintal do Sr. Abílio. Bolinhas, a sua cadela de estimação, já é velha e não consegue correr atrás de mim, então limita-se a fitar-me com aqueles olhos mortiços, abre a boca de sono e deita o focinho nas patas dianteiras, fazendo de conta que não me vê. É tão fácil!

Todos descem a escadaria da minha mansão que range sob o peso dos seus pés para se sentarem à mesa. Sebastião é o primeiro a servir-se. Lá diz a música: "Sebastião come tudo, tudo, tudo...".

O burburinho instala-se, já não consigo ouvir os acordes de Vivaldi do rádio que me relaxam, um outro dia que começa. No entanto, a emissão é interrompida para uma notícia de última hora:

"Continuam os roubos de arte sacra na nossa aldeia, e desta vez foi na igreja. Mais imagens de santos foram roubadas, unclusive a do Santo padroeiro da nossa aldei, o Santo António e, ao que consegui apurar, também desapareceram uns ténis de marca que pertenciam ao sr. Padre e umas moedas que o próprio deixou na sacristia para no dia seguinte comprar pão. O sr. Padre está transtornado porque, ao que parece, não ouviu um único som devido à telenovela que estava a assistir na televisão."

Logo depois ouviu-se a voz do padre:

"Eu coloco o volume da televisão no 50 sabe, a minha audição já não é o que era, e estava a prestar muita atenção porque era no episódio de ontem que se ia descobrir que a mulher estava a cometer um adultério com o melhor amigo do marido, e olhe não dei por nada!"

A voz da jornalista voltou a ouvir-se:

"A população está indignada! Ainda no dia de hoje vai haver uma manifestação à porta da GNR da aldeia que, segundo os habitantes, vai acontecer entre as 18 e as 19 horas, porque a seguir é hora do jantar e no restaurante do Matias vai haver porco no espeto".

A emissão foi retomada mas com outra música diferente, desta vez a Ágata cantava que prefere estar sozinha. A Maria ficou com um ar triste.

- Roubaram a imagem de Santo António. E agora, a quem vou eu pedir um novo marido?

- Ó mãe, sinceramente, não acha que já está um pouco velha para isso? - perguntou o Sebastião.

A Maria deu-lhe uma sapatada na nuca que o rapaz quase batia com o nariz no prato.

- Tu cala-te, que a conversa ainda não chegou ao galinheiro!

A Condessa, que até então estivera muda, deu o ar de sua graça:

- Eu vou dar uma pequena doação à igreja, e acho que deveria fazer o mesmo, mon cher Milord.

Todos os olhares se puseram em mim. Engasguei-me com um pedaço de pão e, se não fosse a Maria a bater-me nas costas, estava a ver que morria sufocado. Esta mulher endoideceu!

- Ça va, Milord?

- Ah oui, madame! Tout va bien. Eu vou pensar no assunto com carinho, prometo - disse para terminar o assunto.

A Maria deu uma gargalhada e disse bem alto, a caminho da cozinha: desista senhora, esse aí não abre a mão nem para dizer adeus!

 

Milord opina

Milord, 31.08.20

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Marie Antoinette in Court Dress | Élisabeth-Louise Vigée-Le Brun | 1778

 

É este modelo de vestido que a Condessa escolheu para usar na festa do avante. Sim, antes que me perguntem, ela também foi convidada para mal dos meus pecados! Eu devo ter soltado a guilhotina que tirou a vida a Maria Antonieta numa outra vida para merecer isto! É que ela não tem a mais perfeita noção do papel de ridícula que vai fazer.

Tentei, por diversas vezes, dissuadi-la a escolher outro modelo. Disse-lhe que a qualquer momento ela pode tropeçar nas saias e cair redonda no chão como uma panqueca. Sem sucesso. Diz ela que o tamanho exagerado (ao menos admite) das suas saias serve para manter a distância de segurança das outras 33 mil pessoas que vão estar presentes.

Que querem que lhe diga?! Ela está irredutível!

 

As personagens

Milord, 31.08.20

Personagens principais deste blogue

 

Maria: criada de Milord. Uma mulher de meia idade, atarracada, um pouco rude e com pouca inteligência. O marido expulsou-a de casa juntamente com o filho de ambos para viver com outra mulher. Faz praticamente tudo sozinha na mansão de Milord em troca de um teto e comida. Não recebe salário.

 

Milord: Mas porque é que eu não apareço primeiro na lista?! Um nobre francês que gastou toda a sua fortuna com os seus luxos. Teve que sair do país para fugir das dívidas. Atualmente vive em Portugal numa mansão decrépita, numa aldeia pequena mas cheia de vida, lamentando a sua sorte. Contudo, mesmo arruinado não perde a pose, pensa ser superior aos outros, e recusa-se a aceitar o seu atual estado financeiro. Vive um dia de cada vez.

 

Sebastião: filho de Maria. Um adolescente de treze anos rebelde, sem maneiras e com uma fome voraz. Não liga nada aos estudos, só quer saber das meninas e de cerveja, e não se preocupa com nada da vida.

 

Madame Bernadette Croquette: Condessa de Champignon, uma região de França que ninguém conhece. Uma senhora elegantíssima, chiquérrima, cheia de etiqueta, viúva e reformada. Veio passar umas férias na mansão de Milord devido a um problema de saúde, provocado pelo clima frio do seu país, e por cá foi ficando até hoje, sem data prevista para o regresso. Milord desconfia que ela pensa ficar por cá durante uma eternidade.

 

Mademoiselle Pauline: neta da Condessa que veio passar férias em Portugal com a avó. Uma menina adolescente como o Sebastião, porém com outra educação, claro está. Uma menina muito bonita, loira e de olhos azuis, tímida e assustadiça.

 

Carolina: namorada do Sebastião. Nada contente com a chegada de uma outra rapariga que vive na mesma mansão que o namorado.

 

Misha: o gato de Milord. Contente com quase todas as pessoas que habitam a mansão porque lhe dão colo, carinho e comida. Não gosta do Sebastião que lhe puxa a cauda e atira-o ao chão. Prepara um plano de vingança contra ele sem que ninguém perceba, obviamente porque ele é um gato meus caros, e a única coisa que diz é um simples miau!

 

Todas as personagens contidas neste blogue são inteiramente fictícios e fruto da imaginação do autor. Quaisquer semelhanças com a realidade é pura coincidência.

Milord testado

Milord, 27.08.20

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Meus caros,

Acredito que a vossa preocupação sobre a minha pessoa é grande e que, quando viram o título deste texto, os vossos olhos se arregalaram e os vossos corações bateram a uma velocidade estonteante pensando que eu, já com uma certa idade e, por isso, mais propício a esta coisa dos vírus, estivesse infetado com Covid-19 e que tivesse realizado um teste para o comprovar. Não, não é nada disso! O teste de que vos vou falar é outro.

Após o último debate ocorrido entre Joe Biden e Bernie Sanders, em que o tal "Sleepy Joe" mostrou uma energia esfuziante fora do habitual, Donald Trump pediu um teste de despistagem de droga para ele mesmo e para Joe Biden antes do primeiro debate presidencial, previsto para dia 29 de setembro. Segundo Trump, Biden teve uma atitude "normal" ao contrário das anteriores em que o mesmo se mostrava letárgico, e isso intrigou-o.

O mesmo me intrigou a mim. Devido à minha idade já um pouco avançada a minha performance já não é a mesma que outrora. Já não consigo beber uma cerveja de penálti sem me engasgar; já não consigo chegar a tempo à casa de banho sem antes soltar umas pingas de xixi nos trusses; a Maria tem de repetir duas vezes a mesma coisa para que a consiga entender; e já não consigo fazer longas caminhadas sem deitar a língua de fora como os cães. Contudo, há uns dias para cá, tenho sentido uma energia diferente em mim. Ainda esta manhã consegui baixar-me para calçar as meias sem que os meus ossos protestassem com o esforço.

Tudo isto me levou a questionar-me. Será que eu estou a ser drogado?! Não me admira nada que alguém ande a colocar alguma substância ilícita no meu chá! Mas com que propósito? Não consigo compreender. Eu não estou na corrida das eleições presidenciais americanas, porque se tal acontecesse não tenham a menor dúvida de que ganharia com uma perna às costas. Essas pessoas não percebem nada de política! Antigamente não havia cá debates e testes! Pelo contrário, era quando o rei estava bêbado que se tomavam as melhores decisões.

Pois hoje, sem contar nada a ninguém, dirigi-me a uma clínica privada e exigi que me fizessem um teste, que me custou os olhos da cara! O teste deu negativo mas a minha consciência ficou mais leve. Daqui em diante vou ficar mais atento.

 

Milord observa a arte

Milord, 26.08.20

David - Florença

Davi - Galleria dell'Accademia, Florença

Nestes dias de calor só me apetece andar assim pela casa. Obviamente que não tenho o mesmo corpo que essa escultura que eu, muito gentilmente, partilho hoje com vocês para que a possam observar e tirar as vossas conclusões acerca do tamanho da "arte"! No entanto, posso afirmar que Milord nasceu com... outros atributos, digamos assim.

Milord não gosta do calor, é verdade! É ver as temperaturas a subir e o meu humor a descer. Se pudesse fazer como os ursos, mas no sentido contrário da coisa, hibernava durante todo o verão e só voltaria ao ativo no outono. Posso me comparar a um bombom da Ferrero Rocher, passo a publicidade, que sai de circulação em Maio/Junho e regressa em Outubro para não perder a sua qualidade.

E agora vocês perguntam: então Milord, hoje não há nenhuma história engraçada com as suas personagens?

E eu respondo: Não! Que eu também estou aqui para falar de coisas sérias.

 

Milord vai à bruxa

Milord, 24.08.20

Esta manhã recebi um panfleto na minha caixa do correio. Estava quase a coloca-lo no lixo quando a Maria apareceu e quis ver o que estava lá escrito.

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Ficou logo toda contente por a Madame não sei das quantas estar na cidade porque, segundo ela, desde que aqui trabalha que sente uma energia negativa nesta casa e que isso não é nada bom.

- Eu nem era para lhe contar isto, Milord, mas esta noite tenho quase a certeza que senti alguém a puxar-me os pés. Não faça essa cara, olhe que é verdade! Eu acho que esta casa está assombrada, por isso é que o Milord está a perder tudo o que tem. Alguém deve ter-lhe colocado mau olhado.

Disse-lhe logo que não acreditava nessas coisas. Mas ela insistiu:

- Olhe que eu ouvi dizer que a Madame Carmecita fez com que um senhor de outra cidade recuperasse toda a sua fortuna.

Mal ela disse aquilo foi como se uma luz se acendesse na minha cabeça. Tenho a certeza que até a minha expressão mudou logo porque a Maria fez um sorriso de satisfação.

Decidimos telefonar para marcar uma consulta e, que sorte a nossa, a senhora informou-nos que estava disponível já esta tarde devido a uma desmarcação de uma cliente que se encontrava com gripe.

O seu "consultório" fica numa rua estreita sem saída perto da igreja. Quando chegamos a primeira coisa que me chamou a atenção foram os gatos. 14 pares de olhos verdes observaram-nos como se fôssemos dois ET's que tinham acabado de aterrar. A porta da casa estava aberta e não havia nenhuma campainha a que pudéssemos tocar e, então, entramos cautelosamente.

- Estou aqui! - gritou uma voz. Demos um salto.

- Ai que susto, minha senhora! - disse a Maria com uma mão no peito - mas afinal está aonde?!

- AQUI!

A minha vontade era fugir dali a sete pés.

Demos com a tal senhora numa sala escura, sentada a uma mesa circular, debruçada sobre uma bola de cristal brilhante que refletia várias cores. Abri a boca de espanto!

- O melhor é fechar a boca Milord, senão ainda lhe entra uma mosca - e riu-se da sua própria piada mostrando apenas os dois dentes que tinha na boca.

- Mas como é que a senhora sabe o meu nome?!

- A Madame Carmecita tudo sabe, tudo vê e tudo resolve! E eu sei porque você está aqui.

A Maria, que até então permaneceu calada, aproximou-se sem medo da senhora e explicou-lhe os nossos problemas, falando sem parar até de coisas que eu próprio desconhecia da minha própria casa.

A senhora olhou-me nos olhos e ordenou-me que me aproximasse. Debruçou-se ainda mais na sua bola de cristal e manuseou as suas mão em torno dela. Reparei que tinha umas unhas tão grandes e tão compridas que dei por mim a desejar que ela não tivesse que me tocar. Perguntei-me se ela acariciava os seus gatos. Pobres animais!

- Eu vejo uma luz... - começou por dizer.

- Quer que feche mais os cortinados, Madame? - perguntei.

- CALE-SE!!

- Milord, sinceramente! Deixe a senhora concentrar-se - reclamou a Maria. Eu queria pelo menos um pretexto para sair dali para fora.

A bola de cristal ficou escura durante alguns segundos, depois passou para um tom avermelhado e logo a seguir ficou roxa.

- Hum, muito interessante! - resmungou a mulher.

De repente, ficou escura outra vez. Eu nem respirava. A bola passou a vermelho novamente.

- Que estranho...

- Está a ver alguma coisa Madame? - perguntou a Maria.

- Eu vejo... eu vejo...

Um clarão branco surgiu, iluminando os nossos rostos espantados. Até que, de repente, a mesa começou a tremer e logo depois o chão os nossos pés também. Até se ouvia a louça a tilintar na cozinha que ficava do outro lado da parede.

E... PUF!!! A bola de cristal explodiu.